INFORMATIVO ABRACOMEX                                                                                                  QUINTA-FEIRA, 28 JULHO 2005

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ENTREVISTA

Entender o mercado para exportar mais

“No fundo, a empresa não exporta um produto, mas sim a sua capacidade de entender o mercado e de supri-lo com o produto desejado, a um preço adequado e dentro de um prazo razoável”. Esta é uma das sugestões que o mestre em economia, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) e professor universitário Fernando Ribeiro, dá aos empresários que objetivam comercializar seus produtos além das fronteiras brasileiras. A partir de sua experiência na Funcex, órgão de alta representatividade quando o assunto é comércio exterior, Ribeiro aponta as causas que levam ao bom desempenho da balança comercial brasileira e sobre a necessidade de formação de uma “cultura exportadora”. O economista também relata de que maneira a Funcex contribui para uma maior participação das micro e pequenas empresas no mercado externo, assim como sobre a política de promoção comercial do governo para este segmento. Boa leitura.

G21 - Embora o Brasil detenha apenas 1% das exportações mundiais, é inegável seu esforço para ampliar suas exportações tendo atingido, recentemente, a aguardada marca de cem bilhões de dólares. Na visão da Funcex, a trajetória positiva das exportações brasileiras é decorrente de quais fatores?

Fernando Ribeiro: Há uma conjugação de fatores conjunturais, de curto prazo, com fatores estruturais, de longo prazo. Entre os fatores conjunturais destacam-se o forte crescimento do comércio mundial e o aumento dos preços das commodities. E entre os fatores estruturais estão os ganhos de produtividade obtidos pelo país ao longo da década de 90, com especial destaque para o agronegócio, e também uma certa mudança de postura das empresas nacionais em relação às exportações. Hoje, as firmas demonstram maior comprometimento em manter a posição conquistada no exterior, mesmo quando as circunstâncias prejudicam a rentabilidade da exportação - como a valorização cambial.

G21 - De acordo com estudo realizado pela Funcex, em parceria com o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), em 2004, a recuperação do mercado interno compensou parte da perda de rentabilidade do setor exportador. Esta afirmação é válida principalmente para quais setores ou segmentos?

Fernando Ribeiro: Uma conclusão importante deste estudo é a de que os setores com melhor desempenho em termos de rentabilidade total em 2004 dividem-se em dois grupos. O primeiro engloba setores mais voltados para o mercado interno (ou seja, com baixo coeficiente de exportação) como, por exemplo, Metalurgia, Químicos e Têxteis. Isto porque a variação de seus preços de venda no mercado interno foram superiores a dos preços de venda no mercado externo, quando medidos em Reais. E isto basicamente devido à valorização do câmbio. O segundo grupo de setores que tiveram bons resultados em termos de rentabilidade total foram aqueles cujos preços de exportação subiram muito no ano passado, compensando a perda cambial. São os casos, por exemplo, de Extrativa mineral, Café, Açúcar e Abate de animais.

G21 - Segundo lideranças empresariais, executivos governamentais e estudiosos do comércio e do marketing internacional, as empresas brasileiras, de um modo geral, não possuem cultura exportadora. Esta afirmativa ainda é válida ou já se formou uma nova mentalidade mais comprometida com as ações de exportar?

Fernando Ribeiro: Tudo indica que houve efetivamente, nos últimos anos, uma mudança de mentalidade, de forma que as exportações passaram a ser vistas não apenas como "válvula de escape" para momentos em que a demanda doméstica estiver em baixa, mas sim como um elemento fundamental na estratégia de crescimento das empresas no médio e no longo prazo. Um dos reflexos disto é a pressão cada vez maior do empresariado no sentido da desoneração as exportações, da melhoria dos mecanismos de financiamento e promoção comercial e da realização de investimentos públicos em infra-estrutura (como em transportes). Entretanto, acho que o país ainda tem um longo caminho a percorrer no sentido de tornar esta "cultura exportadora" mais generalizada, envolvendo também as micro e pequenas empresas.

G21 - A atual política de promoção de exportação do governo está viabilizando a inserção das pequenas e médias no mercado internacional, tornando nosso modelo exportador menos concentrado nos grandes conglomerados empresariais?

Fernando Ribeiro: Embora o país possua algo em torno de 13 mil micro e pequenas empresas exportadoras, sua participação no valor total exportado pelo país tem se mantido baixa nos últimos anos, em torno de 14% do total. E mesmo assim a maior parte deste valor é feito por um conjunto de cerca de 500 empresas que exportam valores bastante elevados (que em nossa classificação chamamos de micro e pequenas especiais). Por outro lado, há um conjunto relativamente estável de cerca de 1.200 firmas grandes que respondem por cerca de 70% das exportações do país. Quanto à política de promoção de exportações do governo, creio que vem cumprindo um papel importante, mas seus reais efeitos em termos de elevar a participação das firmas menores só poderão ser devidamente avaliados daqui a alguns anos.

G21 - De que maneira a Funcex vem contribuindo para a promoção das micros, pequenas e médias empresas de forma a ampliar a sua participação no mercado externo?

Fernando Ribeiro: A Funcex organiza uma série de cursos de capacitação na área de comércio exterior, cujo público principal são pequenos empresários e estudantes. De forma especial, há uma parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) que vem permitindo a realização regular de tais cursos naquela instituição. Por outro lado, a Funcex vem acompanhando regularmente, já há alguns anos, a evolução dos fluxos de comércio das micro, pequenas e médias empresas, fornecendo estatísticas que são de grande importância na elaboração e implementação de políticas públicas voltadas à promoção das exportações destas empresas.

G21 - Quais as sugestões para os empresários que se preparam para exportar?

Fernando Ribeiro: Conscientizar-se, antes de tudo, de que a exportação deve ser um componente permanente em sua estratégia de atuação, e não apenas uma "válvula de escape". Além disso, a exportação não deve ser vista como alternativa para salvar uma empresa que está indo mal no mercado doméstico, pois as dificuldades no mercado externo são ainda maiores. A palavra-chave é "planejamento". Todas as etapas que a empresa deve cumprir até efetuar com sucesso uma operação de exportação devem ser pensadas com cuidado, e a empresa deve procurar reunir toda a informação possível sobre as condições dos mercados externos, os gostos dos consumidores, os aspectos regulatórios, as barreiras existentes à entrada de produtos estrangeiros nestes mercados, etc. No fundo, a empresa não exporta um produto, mas sim a sua capacidade de entender o mercado e de supri-lo com o produto desejado, a um preço adequado e dentro de um prazo razoável.

Fonte: Global 21