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Entender o mercado para
exportar mais
“No fundo, a empresa não
exporta um produto, mas sim a sua capacidade de entender o mercado
e de supri-lo com o produto desejado, a um preço adequado e
dentro de um prazo razoável”. Esta é uma das sugestões que o
mestre em economia, economista da Fundação Centro de Estudos do
Comércio Exterior (Funcex) e professor universitário Fernando
Ribeiro, dá aos empresários que objetivam comercializar seus
produtos além das fronteiras brasileiras. A partir de sua
experiência na Funcex, órgão de alta representatividade quando
o assunto é comércio exterior, Ribeiro aponta as causas que
levam ao bom desempenho da balança comercial brasileira e sobre a
necessidade de formação de uma “cultura exportadora”. O
economista também relata de que maneira a Funcex contribui para
uma maior participação das micro e pequenas empresas no mercado
externo, assim como sobre a política de promoção comercial do
governo para este segmento. Boa leitura.
G21 - Embora o Brasil detenha
apenas 1% das exportações mundiais, é inegável seu esforço
para ampliar suas exportações tendo atingido, recentemente, a
aguardada marca de cem bilhões de dólares. Na visão da Funcex,
a trajetória positiva das exportações brasileiras é decorrente
de quais fatores?
Fernando Ribeiro: Há uma
conjugação de fatores conjunturais, de curto prazo, com fatores
estruturais, de longo prazo. Entre os fatores conjunturais
destacam-se o forte crescimento do comércio mundial e o aumento
dos preços das commodities. E entre os fatores estruturais estão
os ganhos de produtividade obtidos pelo país ao longo da década
de 90, com especial destaque para o agronegócio, e também uma
certa mudança de postura das empresas nacionais em relação às
exportações. Hoje, as firmas demonstram maior comprometimento em
manter a posição conquistada no exterior, mesmo quando as
circunstâncias prejudicam a rentabilidade da exportação - como
a valorização cambial.
G21 - De acordo com estudo
realizado pela Funcex, em parceria com o Instituto de Estudos para
o Desenvolvimento Industrial (Iedi), em 2004, a recuperação do
mercado interno compensou parte da perda de rentabilidade do setor
exportador. Esta afirmação é válida principalmente para quais
setores ou segmentos?
Fernando Ribeiro: Uma conclusão
importante deste estudo é a de que os setores com melhor
desempenho em termos de rentabilidade total em 2004 dividem-se em
dois grupos. O primeiro engloba setores mais voltados para o
mercado interno (ou seja, com baixo coeficiente de exportação)
como, por exemplo, Metalurgia, Químicos e Têxteis. Isto porque a
variação de seus preços de venda no mercado interno foram
superiores a dos preços de venda no mercado externo, quando
medidos em Reais. E isto basicamente devido à valorização do
câmbio. O segundo grupo de setores que tiveram bons resultados em
termos de rentabilidade total foram aqueles cujos preços de
exportação subiram muito no ano passado, compensando a perda
cambial. São os casos, por exemplo, de Extrativa mineral, Café,
Açúcar e Abate de animais.
G21 - Segundo lideranças
empresariais, executivos governamentais e estudiosos do comércio
e do marketing internacional, as empresas brasileiras, de um modo
geral, não possuem cultura exportadora. Esta afirmativa ainda é
válida ou já se formou uma nova mentalidade mais comprometida
com as ações de exportar?
Fernando Ribeiro: Tudo indica que
houve efetivamente, nos últimos anos, uma mudança de
mentalidade, de forma que as exportações passaram a ser vistas
não apenas como "válvula de escape" para momentos em
que a demanda doméstica estiver em baixa, mas sim como um
elemento fundamental na estratégia de crescimento das empresas no
médio e no longo prazo. Um dos reflexos disto é a pressão cada
vez maior do empresariado no sentido da desoneração as
exportações, da melhoria dos mecanismos de financiamento e
promoção comercial e da realização de investimentos públicos
em infra-estrutura (como em transportes). Entretanto, acho que o
país ainda tem um longo caminho a percorrer no sentido de tornar
esta "cultura exportadora" mais generalizada, envolvendo
também as micro e pequenas empresas.
G21 - A atual política de
promoção de exportação do governo está viabilizando a
inserção das pequenas e médias no mercado internacional,
tornando nosso modelo exportador menos concentrado nos grandes
conglomerados empresariais?
Fernando Ribeiro: Embora o país
possua algo em torno de 13 mil micro e pequenas empresas
exportadoras, sua participação no valor total exportado pelo
país tem se mantido baixa nos últimos anos, em torno de 14% do
total. E mesmo assim a maior parte deste valor é feito por um
conjunto de cerca de 500 empresas que exportam valores bastante
elevados (que em nossa classificação chamamos de micro e
pequenas especiais). Por outro lado, há um conjunto relativamente
estável de cerca de 1.200 firmas grandes que respondem por cerca
de 70% das exportações do país. Quanto à política de
promoção de exportações do governo, creio que vem cumprindo um
papel importante, mas seus reais efeitos em termos de elevar a
participação das firmas menores só poderão ser devidamente
avaliados daqui a alguns anos.
G21 - De que maneira a Funcex vem
contribuindo para a promoção das micros, pequenas e médias
empresas de forma a ampliar a sua participação no mercado
externo?
Fernando Ribeiro: A Funcex
organiza uma série de cursos de capacitação na área de
comércio exterior, cujo público principal são pequenos
empresários e estudantes. De forma especial, há uma parceria com
a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan)
que vem permitindo a realização regular de tais cursos naquela
instituição. Por outro lado, a Funcex vem acompanhando
regularmente, já há alguns anos, a evolução dos fluxos de
comércio das micro, pequenas e médias empresas, fornecendo
estatísticas que são de grande importância na elaboração e
implementação de políticas públicas voltadas à promoção das
exportações destas empresas.
G21 - Quais as sugestões para os
empresários que se preparam para exportar?
Fernando Ribeiro:
Conscientizar-se, antes de tudo, de que a exportação deve ser um
componente permanente em sua estratégia de atuação, e não
apenas uma "válvula de escape". Além disso, a
exportação não deve ser vista como alternativa para salvar uma
empresa que está indo mal no mercado doméstico, pois as
dificuldades no mercado externo são ainda maiores. A
palavra-chave é "planejamento". Todas as etapas que a
empresa deve cumprir até efetuar com sucesso uma operação de
exportação devem ser pensadas com cuidado, e a empresa deve
procurar reunir toda a informação possível sobre as condições
dos mercados externos, os gostos dos consumidores, os aspectos
regulatórios, as barreiras existentes à entrada de produtos
estrangeiros nestes mercados, etc. No fundo, a empresa não
exporta um produto, mas sim a sua capacidade de entender o mercado
e de supri-lo com o produto desejado, a um preço adequado e
dentro de um prazo razoável.
Fonte: Global 21 |