A ascensão do comércio exterior - Abracomex
A ascensão do comércio exterior
09/11/2016

Superávit recorde da balança comercial afasta risco de crise externa no auge da recessão, mas ainda falta muito para o Brasil brilhar na rota do mercado global.

 

Nos relatórios conjunturais de consultorias e bancos, analistas costumam buscar maneiras de explicar fenômenos econômicos em linguagem leiga, evitando jargões de mercado. Assim surgiram os termos “efeito Miami” e “efeito Disney”, que refletem como a valorização do real gerou um boom de compras no exterior e de importados no Brasil no final da década passada. Desde que a crise tomou força e o dólar encostou em R$ 4, em 2015, o fenômeno arrefeceu e estimulou a busca por produtos nacionais, que ficaram mais baratos.

A substituição, somada à retomada das exportações e à queda na demanda interna, vem resultando em superávits recordes na balança comercial e contribuindo para reduzir o rombo externo do País. A queda recente do dólar, porém, sinaliza uma inversão de tendência e acende o alerta sobre o processo de reconquista de novos mercados no exterior, retomado com mais fôlego recentemente por empresas brasileiras. Em ano de recessão, com inflação elevada e uma meta de déficit fiscal de R$ 170,5 bilhões, o superávit comercial é um dos poucos indicadores positivos.

O saldo de US$ 36,2 bilhões entre janeiro e setembro é o maior registrado desde o início da série histórica e mais do que o triplo de igual período do ano passado (US$ 10,2 bilhões). O desempenho comercial é o principal fator por trás do chamado ajuste externo – a redução no rombo nas transações do País com o mundo. No acumulado dos últimos 12 meses, o resultado da conta corrente está negativo em US$ 23 bilhões, menos de um quarto do registrado em 2014, no pico, de US$ 104 bilhões. O déficit menor afasta frentes de pressão no câmbio, que poderiam agravar a crise econômica, como aconteceu nos períodos de dificuldade enfrentados pelo Brasil no passado.

Se, por um lado, reduzem a fragilidade externa, os dados da balança comercial revelam, por outro, uma realidade menos animadora. Os recordes vêm sendo puxados mais pelo recuo das importações do que pela melhora das exportações, num claro sintoma da grave recessão econômica (acompanhe o gráfico na pág. 26). Até setembro, as vendas brasileiras ao exterior somaram US$ 139 bilhões, queda de 3,5% em relação a igual período do ano passado, enquanto as compras acumulam queda de 23%, em US$ 103,2 bilhões. Isso apesar de um incremento de 9,4% nos volumes exportados e a retração de 5,7% nos importados.

O presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro, classifica o fenômeno como “superávit negativo”, que demonstra o impacto da recessão na demanda por importados e a persistente dificuldade de competir no exterior. “É um cenário preocupante porque se o câmbio permanecer nesse nível, perto de R$ 3, o ano de 2017 vai ser muito difícil”, diz Castro. Em julho, a AEB projetava um superávit de US$ 47 bilhões na balança comercial neste ano. Hoje, prevê US$ 44 bilhões. Após uma valorização de cerca de 20% do real no ano, surgem sinais de que a tendência de substituição de importados começa a se reverter.

Outubro deve ser o primeiro mês com novos registros de empresas importadoras depois de seguidos meses de queda. A onda de crescimento de exportadores já foi interrompida. Nessa tendência e com a retomada da demanda interna, a previsão é que o saldo comercial recue para US$ 35 bilhões em 2017. Para a entidade, o dólar ideal para garantir as exportações com os custos atuais seria de R$ 3,80. A variação cambial é sentida com muito mais velocidade nas importações. Cálculos do Itaú Unibanco mostram que a depreciação demora um ano para impulsionar as exportações de manufaturados.

Por isso, a maior parte dos produtos não se beneficiou da alta do dólar no início do ano, quando atingiu o pico de R$ 4,15. Dos 67 itens de maior volume exportado, apenas 27 tiveram crescimento no ano, segundo os dados oficiais. Há melhoras perceptíveis em setores importantes, como aviões (17,7%), automóveis (36%), celulose (1%) e calçados (1%). Ainda assim, não foi suficiente para alavancar as exportações de manufaturados, que devem terminar no menor nível desde 2006. Na análise por fator agregado, o único avanço (20%) foi dos semimanufaturados, grupo que reúne produtos como borracha sintética e celulose.

As compras dos dois principais destinos de manufaturados ainda patinam. Os envios para a Argentina cresceram 1,32% e aos Estados Unidos, caíram 6,42% até setembro. O efeito mais longo da variação cambial nas exportações explica porque a Agrale, montadora de tratores e ônibus, espera um leve aumento da participação das vendas externas no faturamento em 2017, para 15%, ante os 14% previstos para este ano. Segundo Edson Ares Sixto Martins, diretor comercial da marca, são necessários 12 meses para conseguir ampliar o esforço de vendas no exterior, o que inclui preparação da rede de concessionárias e um reforço comercial, como test-drives e exibições.

Por isso, o diretor lamenta que o período de desvalorização do dólar tenha sido curto demais. “Não deu tempo de aproveitar a refeição completa”, brinca Martins. “Pagamos o aumento de custo e não deu tempo de aproveitar nem o almoço, nem o jantar.” Mantido o patamar atual do dólar, a previsão é de que a fatia do comércio exterior perca espaço nas vendas a partir de 2018. Mais do que níveis ideais de dólar, o que os exportadores cobram do governo é estabilidade e um conjunto de reformas que possa minimizar a dependência do câmbio. Só assim acreditam ser possível reduzir a diferença entre o posto do Brasil como oitava economia do mundo e a posição de 25º exportador global.

País está menos competitivo

O Brasil é um dos países que mais dificultam a abertura de empresas em todo o mundo. E, apesar do esforço de diferentes esferas de governo, não consegue reduzir a burocracia para novos empreendedores. Num grupo de 190 países avaliados pelo Banco Mundial, apenas 15 estão piores no quesito facilidade para criar companhias. O Brasil aparece na posição 175, um degrau abaixo do posto ocupado em 2015 no ranking Doing Bussines, que mede a facilidade de fazer negócios. A versão atual dessa lista foi divulgada na terça-feira 25. Na classificação geral, o Brasil perdeu duas posições e passou a figurar a colocação de número 123.

A Nova Zelândia aparece no topo como o local mais fácil para se fazer negócios. Dos dez principais itens que compõem a pontuação, apenas três apresentaram melhora no Brasil: execução de contratos (número de dias, custo dos documentos etc.), registro de propriedades (prazo e número de procedimentos) e questões referentes ao comércio internacional. Neste último, porém, a situação ainda é uma das piores do mundo – posição 149 – devido a problemas como custo da documentação para exportar, que chega a ser mais do que o dobro de economias da América Latina. O número de horas gastas pelas empresas com tributos no Brasil é seis vezes maior do que a média dos latino-americanos.

Fonte: Istoédinheiro

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