Brasil aposta em expansão dos mercados externos
29/01/2019

Crises de refugiados, guerras comerciais, ameaças militares e falta de confiança entre as principais potências mundiais.

O novo governo brasileiro que tomou posse em janeiro terá pela frente um cenário político-econômico instável e delicado nas relações internacionais.

O panorama favorável que beneficiou outros governos no passado recente já não existe mais. A nova realidade global vai exigir muita atenção. A política externa deixou de ser um tema secundário para os presidentes em início de mandato. O momento é outro e o mundo de hoje exige bastante profissionalismo.

É o que lembra o professor Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores no governo Fernando Henrique. Para ele, o momento delicado que vivemos requer liderança.

— Ninguém pode viver hoje em dia em isolamento. É preciso ter um presidente da República que saiba o que é o mundo e saiba como orientar o Brasil no mundo.

O novo presidente da República terá pela frente a tarefa de aproximar polos contrários. Os antagonismos da política interna alcançaram, de forma quase inédita, os rumos da política externa do país.

Como mostraram os recentes debates na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, de um lado estão os que defendem prioridade às relações com os países do chamado sul global. De outro os que preferem voltar a sua atenção a países de maior peso econômico.

Unilateralismo

O novo governo brasileiro começa no momento em que o mundo se torna um lugar menos estável, especialmente depois da posse do presidente norte-americano Donald Trump, em janeiro de 2017. Trump tem dito que não teme uma guerra comercial com potenciais concorrentes e já retirou seu país de importantes conquistas internacionais, como o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas.

O unilateralismo de Trump vai exigir muita reflexão do governo brasileiro, como alerta o professor Alexandre Uehara, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP):

— Creio que o presidente Trump tem causado várias ondas de instabilidade. As sobretarifas que ele estabeleceu causaram bastante distúrbio e isso também vai ser um desafio para o Brasil.

As dúvidas que surgem no cenário internacional levam alguns especialistas a se questionar se não estamos vivendo um momento de ruptura política em relação a modelos que estão em funcionamento desde o fim da segunda guerra mundial.

Essa preocupação já está no radar do Palácio do Planalto. Para Hussein Kalout, secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República no governo Temer, é momento de o país se colocar diante do mundo nesse novo cenário.

— O Brasil não é um país que deverá operar à deriva dos principais temas da agenda internacional. O Brasil talvez seja um dos países mais comprometidos com o sistema multilateral. Um dos desafios do novo presidente é repensar a nossa moldura de inserção internacional e como ela pode trazer resultados efetivos, além dos retóricos, à sociedade brasileira.

Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), as trocas globais devem registrar um aumento de apenas 3,7% em 2019, dando continuidade a uma desaceleração já ocorrida no ano passado. Este cenário já seria resultado de medidas protecionistas em vigor que afetam o fluxo de importações e exportações em todo o mundo.

Os especialistas ainda se dividem quanto às perdas e ganhos dessa situação para o país. Uma coisa, porém, é certa: o Brasil precisa aumentar a sua participação no comércio global. É o que propõe a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, em estudo divulgado em 2018. Segundo o documento, o comércio exterior representa apenas 25% do Produto Interno Bruto do Brasil — o que coloca o país entre os mais fechados do mundo.

Segundo o estudo da secretaria, o Brasil também deve importar mais. Com isso alcançaria dois objetivos: reduzir preços internos e ingressar nas chamadas cadeias globais de valor, em que cada parte de um bem é produzida onde há mais eficiência.

Uma parte do esforço para garantir nossas exportações deve ser feita aqui mesmo no Brasil, segundo o ex-ministro Celso Lafer:

— O Brasil na área agrícola é uma grande potência. E nós somos uma grande potência, primeiro por conta dos investimentos que fizemos em tecnologia e pesquisa que fizeram que o nosso agronegócio tivesse a qualidade que tem.  Agora, porque cresceu e porque é importante, enfrenta resistências e protecionismo. E precisa lidar com essas resistências, em primeiro lugar cuidando dos problemas internos, das normas técnicas, das medidas zoofitossanitárias, que são hoje o mecanismo pelo qual o protecionismo se exerce no mundo.

O comércio agrícola obtido cada vez mais importância, como observa o especialista em agronegócio Marcos Jank:

— As exportações agrícolas brasileiras têm crescido em torno de 10% ao ano nos últimos dez anos. A gente passou de US$ 20 bilhões exportados em 2000 para US$ 100 bilhões atualmente. A gente teve um ótimo desempenho se formos olhar o período todo.

Para Jank, o crescimento do comércio de produtos agrícolas vai ocorrer em toda Ásia — e não apenas na China. O próximo governo, segundo ele, deveria olhar com carinho para toda a região.

— Hoje, 30% da exportação do agronegócio é para a China e é basicamente soja. Mas outros 20% da exportação do agro são para o resto da Ásia sem China. E esse resto da Ásia sem China já é mais importante para a gente do que a própria Europa, que no passado foi o nosso grande comprador.

FONTE: SENADO NOTÍCIAS

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